Quando o Jogo Vira Aprendizado: Pesquisa Comprova Que RPG Transforma Educação e Inclusão

3 meses. 8 grupos. 63 participantes. 640 avaliações. Um dado irrefutável: RPG funciona. Depois de 25 anos nos palcos e 6 anos vivendo de produção cultural, posso afirmar: o que acabamos de comprovar cientificamente não é novidade para quem trabalha com arte e educação. RPG não é "só diversão". É ferramenta de desenvolvimento humano robusta, mensurável e replicável

RPG NA EDUCAÇÃO

Cleverson

1/22/20267 min read

Entre setembro e novembro de 2025, a Agência Quintal Criativo conduziu pesquisa qualitativa descritiva através das Oficinas de Jogos de Interpretação de Papéis (RPG) financiadas pela Prefeitura de Pinhais. Oito contextos institucionais. Crianças, adolescentes, jovens, adultos. Neurodivergentes, alunos com dificuldades severas de aprendizagem, pessoas que nunca conseguiram passar em teste de leitura.

O resultado? 72,2% de taxa positiva geral. Mas os números que realmente importam estão nas dimensões específicas.

Os Dados Que Mudam a Conversa

Criatividade Explode: 84,3% de Taxa Positiva

A dimensão com melhor desempenho foi Criatividade e Imaginação, com 84,3% de respostas positivas (Excelente + Bom).

Isso não é margem estatística. É convergência que aponta para um fato: quando você oferece estrutura clara (regras do jogo) combinada com liberdade criativa (múltiplas soluções possíveis), crianças e adolescentes demonstram capacidade criativa que frequentemente permanece invisível em contextos pedagógicos convencionais.

Os alunos não apenas participaram. Eles continuaram falando sobre a aula depois que ela encerrou. Solicitaram que as sessões fossem semanais, não quinzenais. A criatividade oferecia recompensa motivacional suficiente para invadir o pensamento espontâneo dos alunos.

Participação e Engajamento: 84,3%

Mesmo em grupos grandes (até 17 alunos), a taxa de participação manteve-se elevada. Todos participaram ativamente, inclusive aqueles que historicamente são invisíveis em sala de aula convencional.

Resolução de Problemas: 84,4%

Alunos resolveram desafios do RPG com suas próprias ideias ou ajuda colaborativa. O primeiro confronto narrativo foi descrito assim por um educador: "As descrições e movimentações de cada aluno em suas ações foram bem engraçadas e movimentaram seu corpo, representaram seu personagem, descreveram as suas ações e realizaram cálculos".

RPG solicita múltiplas operações mentais simultaneamente: cálculo, narração, estratégia, movimento. Isso é aprendizado integrado.

Compreensão de Regras: 78,1%

A taxa de 78,1% contradiz a noção popular de que sistemas como Dungeons & Dragons 5ª edição e Ordem Paranormal são "muito complexos" para crianças.

Nós implementamos revelação progressiva de regras: ao invés de explicar todas as mecânicas simultaneamente, introduzimos sistemas complexos de forma gradual conforme a narrativa avançava. Essa abordagem transformou complexidade em vantagem pedagógica.

Para crianças até 10 anos, oferecemos o sistema Hora da Aventura, apropriado ao desenvolvimento cognitivo dessa faixa etária.

Habilidades Sociais: 73,4%

Grupos compostos exclusivamente por neurodivergentes (autistas, TDAH) mantiveram taxas de positividade equivalentes ou superiores a grupos heterogêneos.

Por quê? Porque o RPG externaliza normas sociais através de regras explícitas. Pessoas autistas, que frequentemente experienciam o mundo social como ambíguo e ameaçador, encontram segurança em sistema com regras claras.

Os Casos Que Comprovam: Jhony e Luís

Jhony: 100% de Frequência

Aluno com dificuldades severas de leitura e escrita. Não sabia ler nem escrever. Em ambiente escolar convencional, seria invisível ou seria marcado como "incapaz".

No RPG, com instrutor dedicado ao seu lado, Jhony participou ativamente. Não faltou a nenhuma sessão. Zero. Durante três meses de implementação, compareceu a todas as aulas.

Não porque o problema foi solucionado magicamente. Mas porque a modalidade de acesso mudou: narração oral pelo mestre, imagens pictóricas em alta resolução, representação gestual e física do personagem, suporte de instrutor que auxiliava e celebrava as contribuições.

Luís: De Aluno a Mestre

Aluno com barreiras de comunicação. Iniciou participando das sessões de RPG nas quartas-feiras pela manhã.

Progressivamente, expandiu seu engajamento para contextos mais desafiadores:

  • Começou a participar das oficinas de formação de mestres (conteúdo denso e avançado)

  • Manteve frequência consistente nas sessões de sábado pela manhã com suporte da instrutora Rafaela

  • Não faltou a nenhuma oficina

  • Participou das sessões mensais de RPG na biblioteca, onde interagiu em grupos com mais de 10 participantes

A trajetória de Luís demonstra que o RPG não apenas acolhe neurodivergentes, mas pode funcionar como ponte para progressão e desenvolvimento contínuo.

O Que Realmente Funciona (Fatores de Sucesso)

1. Revelação Progressiva de Regras

Não explicamos tudo de uma vez. Introduzimos mecânicas conforme a narrativa demandava. Isso facilitou compreensão e retenção.

2. Grupos Pequenos (4 a 6 Alunos por Mestre)

Sessões com 17 alunos foram divididas em duas mesas simultâneas. Resultado: melhora visível em engajamento narrativo, redução de conflitos, aumento de participação individual.

3. Materiais Visuais de Qualidade

Mapas impressos em cores, livros de RPG impressos (não PDF), ilustrações de personagens (NPCs) em alta resolução, narrativas mestres ricamente descritas.

A imersão narrativa foi alcançada em espaços convencionais (salas com mesas e cadeiras, bibliotecas), não em ambientes temáticos. Isso democratiza o acesso ao RPG educacional em instituições com recursos limitados.

4. Instrutores Dedicados para Necessidades Especiais

Para alunos com déficits severos em leitura e escrita ou múltiplas barreiras simultâneas, foi necessário instrutor dedicado que permanecia ao lado durante toda sessão.

Não "auxiliar ocasional". Pessoa comprometida.

5. Acessibilidade Multimodal

Narração oral, imagens pictóricas, representação gestual, suporte personalizado. Quando você remove a barreira da leitura e escrita, descobre que as habilidades cognitivas e criativas da criança permanecem intactas. Elas estão mascaradas, não ausentes.

O Desafio: Retenção de Frequência

A pergunta "Quero vir na próxima aula e jogar de novo" gerou 56,2% de positividade, com 34,4% respondendo "Ruim".

Interpretação: A primeira sessão cumpre sua promessa (experiência narrativa imersiva, recompensa colaborativa genuína). Mas a manutenção de motivação ao longo do tempo é desafio substantivo.

A queda não reflete limitação da metodologia RPG. Reflete ausência de estratégia sistemática de comunicação e engajamento digital. Não houve divulgação consistente em redes sociais, lembretes de próximas sessões, compartilhamento de momentos destacados, convites personalizados.

Paradoxo que valida a metodologia: Alunos como Jhony (100% de frequência) e Luís (progressão para formação de mestres) demonstram que comprometimento genuíno e retenção são absolutamente possíveis quando estrutura apropriada é mantida.

Integração Curricular: Presente, Mas Invisível

A pergunta "Lembrei de coisas da escola (história, matemática, ciências)" gerou 48,4% de positividade, o desempenho mais baixo.

Mas aqui está o detalhe importante: a integração curricular foi deliberadamente implementada nas campanhas:

  • A aventura de Dungeons & Dragons foi ambientada no porto de Paranaguá (contexto histórico-geográfico real)

  • As oficinas para crianças usando o sistema Hora da Aventura incorporaram desafios matemáticos estruturados como obstáculos narrativos

A taxa de 48,4% reflete falta de explicitação consciente dessa conexão aos alunos. Os alunos vivenciaram conteúdos escolares sem que mestres apontassem essas conexões, resultando em aprendizagem implícita não-conscientizada.

Solução: Futuras implementações devem verbalmente conectar narrativa a conteúdos escolares durante sessões, implementando estratégia de "ponte explícita".

Neurodivergentes: RPG Nivela o Campo de Jogo

Este é o achado mais poderoso da pesquisa.

Grupos compostos exclusivamente por neurodivergentes mantiveram taxas de positividade equivalentes ou superiores a grupos heterogêneos (aproximadamente 66% vs. média geral 72,2%).

Por que isso acontece?

  1. Externalização de normas sociais: Regras são explícitas, não implícitas

  2. Redução de ansiedade social comparativa: Menos "pares de referência não-neurodivergentes" contra os quais comparar-se

  3. Calibração pedagógica específica: Mestres ajustam ritmo, repetição de instruções e mediação de conflitos especificamente para necessidades neurológicas

Consequência radical: A premissa convencional de que "inclusão equivale a misturar todos" é refutada. Verdadeira inclusão é acesso equitativo de todos a ambientes onde podem prosperar.

Para muitos neurodivergentes, isso significa grupos com estrutura explícita, não grupos "mistos" que frequentemente negligenciam adaptações necessárias.

O Modelo de Viabilidade: Prefeitura de Pinhais

Esta pesquisa foi viabilizada através de licitações públicas da Prefeitura de Pinhais direcionadas a crianças, jovens e adultos.

Essa ação administrativa transcende a simples oferta de atividade recreativa: reconhece RPG como ferramenta legítima de desenvolvimento humano e inclusão social.

O modelo de financiamento público via editais demonstra que RPG educacional é viável quando há vontade política e alocação de recursos.

O desafio não é se é possível. O desafio é garantir continuidade de financiamento e expansão dessa política pública que já demonstrou impacto mensurável em desenvolvimento integral e inclusão de populações vulneráveis.

Reflexão Final: Humanização Através do Jogo

Após três meses de observação direta, análise de 640 fichas de avaliação e diálogo contínuo com mestres e alunos, torna-se evidente que o RPG representa mais do que uma ferramenta pedagógica.

Representa ferramenta de humanização.

A criança que nunca conseguiu passar no teste de leitura descobre no RPG que consegue resolver problemas, criar histórias e liderar um grupo.

O adolescente neurodivergente que foi historicamente isolado porque "não entende regras sociais" descobre no RPG que consegue colaborar, liderar e conectar com pares. Porque as regras foram explicitadas.

O adulto que anos atrás abandonou aprendizado por prazer redescobre capacidade criativa através de narrativa colaborativa.

Isto é humanização: reconhecimento de que cada pessoa, independentemente de neurodivergência, dificuldade de aprendizagem ou contexto social, possui potencial criativo e colaborativo que frequentemente permanece invisibilizado em ambientes convencionais.

Leia o Relatório Completo

Quer mergulhar nos dados, na metodologia, nas análises qualitativas detalhadas e nas recomendações para implementação?

👉 Baixe o Relatório Completo da Pesquisa (PDF)

O relatório inclui:

  • Referencial teórico completo (RPG e desenvolvimento humano)

  • Caracterização detalhada da amostra (8 grupos, 63 participantes)

  • Análise qualitativa dos resultados por dimensão

  • Diários de mestre com registros descritivos

  • Achados transversais sobre dinâmica de grupos

  • Fatores de sucesso críticos

  • Limitações e desafios identificados

  • Recomendações para prática e pesquisa futura

  • Reflexão sobre política educacional e institucional

Cleverson Schuengge dos Reis
Diretor Criativo | Agência Quintal Criativo
Pesquisador | Mestre de RPG Educacional
22 de janeiro de 2026

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